A coordenadora do Assimetrias, Kérley Winques, participou do ciclo formativo “Segurança digital para comunidades de terreiro”, promovido pelo Instituto Feijão de Ogum, em Juiz de Fora. A iniciativa reuniu pesquisadoras, ativistas e representantes de comunidades de terreiro para discutir estratégias de proteção no ambiente digital diante do avanço da intolerância religiosa, do racismo religioso e das diferentes formas de violência que atingem as populações de matriz africana nas redes. A programação foi realizada nos dias 21 e 28 de julho, no Centro de Preservação da Memória Negra de Juiz de Fora e Região.
Na primeira atividade, dedicada às estratégias de mobilização, Kérley participou da roda de conversa ao lado de Taís Oliveira, mulher de terreiro, pesquisadora e diretora do Instituto Sumaúma, e Camilo Azarias, pai de santo da Casa de Dya e diretor do Instituto Feijão de Ogum. O encontro abordou diferentes dimensões do cuidado digital, incluindo proteção de dados, segurança nas plataformas e os desafios colocados pela circulação de conteúdos e discursos de ódio no ambiente digital.

A participação da pesquisadora dialoga com sua trajetória de investigação sobre plataformas digitais, algoritmos, inteligência artificial e assimetrias sociotécnicas. No contexto do ciclo, a discussão sobre segurança digital permite deslocar a ideia de tecnologia como ferramenta neutra e considerar as relações de poder que atravessam sua produção e seus usos. Para comunidades de terreiro, esse debate envolve também a proteção de conhecimentos, imagens e informações sensíveis, considerando que a exposição de determinados elementos da vida religiosa nas plataformas pode produzir novas formas de vulnerabilidade.
A inteligência artificial também esteve entre os temas mobilizados durante a atividade. O uso dessas tecnologias foi discutido a partir da necessidade de uma apropriação crítica, especialmente diante da possibilidade de reprodução e amplificação de vieses raciais e discriminatórios pelos sistemas algorítmicos. A discussão se aproxima de uma perspectiva que compreende a tecnologia como espaço de disputa e que considera a proteção de dados e dos saberes ancestrais parte das estratégias contemporâneas de resistência. A própria proposta do ciclo relaciona os cuidados digitais aos saberes tradicionais de terreiro, aproximando práticas ancestrais de preservação e estratégias técnicas de segurança no ambiente conectado.
O ciclo também discutiu o conceito de colonialismo digital, abordando as formas pelas quais grandes plataformas participam da exploração e da circulação de saberes negros e ancestrais, ao mesmo tempo em que podem ampliar a exposição das comunidades de terreiro a ataques e violências. A iniciativa parte, assim, de uma compreensão ampliada da segurança digital, que envolve não apenas dispositivos e senhas, mas também autonomia, memória, proteção de conhecimentos, governança dos dados e direito à presença digital.
A programação foi encerrada com uma segunda roda de conversa, realizada em 28 de julho, sobre memória, tradição e cuidados digitais, e com o lançamento de uma cartilha digital destinada às populações de santo, reunindo orientações sobre proteção e segurança no ambiente virtual.
Para o Assimetrias, a participação na iniciativa reforça a importância de pensar as tecnologias digitais a partir de seus contextos sociais, culturais e políticos de uso, especialmente quando envolvem grupos historicamente submetidos a processos de apagamento, violência e apropriação de seus conhecimentos. A experiência também amplia as possibilidades de diálogo entre pesquisa acadêmica, saberes comunitários e práticas de cuidado, colocando a tecnologia em disputa a partir das experiências e demandas dos próprios sujeitos que a utilizam.