Jornalistas e organizações de notícias em todo o mundo enfrentam uma crise sem precedentes e multifacetada. É o que aponta a fase 3 do relatório Worlds of Journalism Study 3 (WJS3), considerado o maior e mais abrangente estudo internacional sobre práticas, valores e condições de trabalho no jornalismo. A conclusão, divulgada este ano, é parte de um esforço coletivo de pesquisadores de mais de 110 países e tem documentado as transformações no campo desde sua criação em 2007. A professora Dra. Kérley Winques, coordenadora do Assimetrias, integrou a equipe do WJS3, que envolveu mais de 300 pesquisadores e 32 mil jornalistas de diferentes países, no período de 2021-2025.
Segundo a organização, em muitos contextos, essa crise – inédita na história da mídia noticiosa moderna – é vista como uma séria ameaça ao jornalismo e à sua existência futura como instituição social vital para a democracia e governança. Nesse sentido, a terceira fase da pesquisa buscou deslocar o foco analítico para os níveis de risco e incerteza que os jornalistas enfrentam ao redor do mundo, bem como para as formas pelas quais lidam e se adaptam a esses riscos em diferentes contextos políticos, socioeconômicos e culturais. “Um objetivo central do estudo é comparar a situação do jornalismo em uma ampla variedade de sociedades, rastrear desenvolvimentos ao longo do tempo e identificar fatores-chave que impulsionam diferenças internacionais na forma como jornalistas concebem e enfrentam risco e incerteza”, cita o texto de apresentação.
O projeto avaliou percepções de risco nas seguintes áreas: autonomia editorial, influências sobre o jornalismo, papéis jornalísticos, epistemologias jornalísticas, ética profissional, segurança e resiliência dos jornalistas, e condições de trabalho. Esses aspectos foram analisados com base em pesquisas representativas com jornalistas de todas as regiões do mundo, incluindo o Brasil.
Embora o foco se desloque para o estudo do risco e da incerteza no jornalismo, o WJS3 também manteve os esforços das fases anteriores de monitorar o estado do jornalismo mundial. “Adicionar uma perspectiva longitudinal torna-se ainda mais importante numa fase em que a instituição jornalística, em constante transformação, pode estar em um momento crítico em um ambiente midiático em rápida evolução”, destacam.
Plataformas de mídia, formatos e culturas jornalísticas
O capítulo Media Platforms, Formats, and News Cultures afirma que na fase 3 do estudo foi possível ampliar a compreensão sobre os ambientes midiáticos adotados por jornalistas ao incluir novas perguntas sobre plataformas de distribuição, formatos de mídia e contextos culturais das organizações. Segundo o capítulo, esses acréscimos permitem uma visão mais precisa de como os jornalistas produzem e distribuem conteúdo, especialmente diante da crescente centralidade do digital.
Globalmente, websites aparecem como a principal plataforma de publicação (70%), seguidos por plataformas de mídias sociais, impresso e aplicativos de notícias, embora haja variações entre países. O texto continua sendo o formato mais predominante (80%), com a produção multimídia ganhando espaço em algumas regiões. Outros formatos, como vídeo, áudio e fotografia, apresentam maior oscilação conforme o peso de rádio e TV em cada contexto nacional. Além disso, plataformas como apps de mensagens e newsletters mostram tendências regionais marcadas.
No que diz respeito ao contexto cultural das empresas jornalísticas, predominam empregadores tradicionais, como jornais, revistas e TV, que somam 79% das contratações. Veículos nativos digitais têm maior presença em países com restrições à liberdade de imprensa, por sua capacidade de escapar de controles estatais. No geral, os resultados evidenciam a centralidade das plataformas digitais, a resiliência do impresso e a permanência do texto como base do trabalho jornalístico, além de apontar desafios estruturais relacionados à sustentabilidade dos meios tradicionais.
A análise na íntegra, que conta com a colaboração de Winques, pode ser acessada aqui.
Relatório do Brasil
Além da análise discutida acima, a professora Kérley Winques também assina o relatório sobre os resultados do Brasil, com 602 respostas de jornalistas, dentro de uma população estimada de 43.273 profissionais de mídia, coletadas entre janeiro e maio de 2023. Os resultados revelam um ambiente hostil, com aumento da violência, intimidação e deslegitimação da imprensa. Embora 2023 tenha registrado queda nas violações à liberdade de imprensa, casos de assédio judicial e censura permanecem preocupantes, aponta o documento, que cita o Brasil na 62ª posição entre 73 países avaliados pelo Safety of Journalists Index de 2025 (Índice de segurança dos jornalistas), destacando os riscos persistentes enfrentados por jornalistas no país.
O estudo traça um perfil dos jornalistas brasileiros majoritariamente formado por mulheres (50,3%), com média de 40 anos e alta qualificação acadêmica, marcada por formação quase universal em jornalismo. Nas redações, quase metade não ocupa cargos de gestão e a maioria atua em veículos privados. “Essas desigualdades mostram como preconceitos de gênero profundamente enraizados continuam estruturando o campo jornalístico, gerando preocupações essenciais sobre condições de equidade, reconhecimento e segurança profissional das mulheres na profissão”, destaca Winques.
Além disso, as preocupações com segurança são expressivas, especialmente quanto à impunidade de agressores e ao bem-estar emocional. No exercício profissional, os jornalistas priorizam funções de interesse público, como combater a desinformação e expor problemas sociais, e muitos adotam uma postura interpretativa ativa. A ética é amplamente valorizada, embora menos da metade perceba elevada autonomia editorial; ainda assim, influências internas (sobretudo considerações éticas) são vistas como as que mais orientam as decisões jornalísticas.
“Os dados revelam um cenário que exige atenção: jornalistas trabalhando sob fortes preocupações com segurança, lidando com a impunidade de agressores e com efeitos emocionais intensos, ao mesmo tempo em que sustentam funções centrais ao interesse público, como o combate à desinformação e a exposição de desigualdades. Ao mostrar que a ética segue como referência primordial, mesmo em um contexto de autonomia editorial limitada, o estudo evidencia não apenas as pressões que moldam o fazer jornalístico hoje, mas também a resiliência da categoria. Esses resultados oferecem subsídios importantes para compreender os desafios estruturais da profissão e suas implicações para a saúde da democracia.” reflete Winques.
Os pesquisadores Marcos Paulo Silva (coordenador nacional do WJS3), Laura Storch (coordenadora nacional do WJS3), Janara Nicoletti, Sonia Virginia Moreira, Nélia Rodrigues del Bianco, Netília Seixas, Giovana Mesquita, Iluska Coutinho, Claudia Lago, Maria José Baldessar e Cézar Franco dos Santos Martins, também integram o projeto. O resultado na íntegra pode ser acessado aqui.